terça-feira, outubro 03, 2006

Consumidores, Negociadores, Meros observadores ou Adoradores?


Consumidores, Negociadores, Meros observadores ou Adoradores?
Por Augusto Guedes

Constantemente pessoas vão às mais diversas igrejas "para adorar". Ao observar os seus comportamentos, podemos encontrar características muito fortes, tão marcantes, que muitas vezes parecem determinar mudanças, que vão desde o que acontece nos momentos das celebrações, às estruturas montadas para recebê-las. E aí nos perguntamos: Quem está influenciando quem? Será que isso é gerado a partir dos modelos assumidos pelas instituições religiosas, a ponto de mudar o comportamento dos seus freqüentadores? Ou serão influências trazidas para as igrejas por seus "adoradores"?Muitos dos que vão à igreja "para adorar", parecem estar indo a um shopping center. Estacionam seus carros num local seguro, ao entrar recebem panfletos com as mais diversas promoções da semana, optam por uma das salas de entretenimento ou dentre os muitos atrativos oferecidos, e depois têm a oportunidade de encontrar amigos ao redor de uma mesa para fazer um saboroso lanche. É claro que em tudo há opções para todos os gostos e idades. Esses freqüentadores apresentam mais características de consumidores do que de adoradores. Assim o momento de culto passa a ter "público alvo" e não um "único alvo".
O programa, ou liturgia, passa a necessitar de atrativos bons o suficiente para evitar a procura pelo concorrente. E aí, os "ministros", sejam do louvor, sejam da palavra, passam a desempenhar o seu papel muitas vezes pensando naquilo que mais pode agradar a esse exigente público acostumado a pagar por produtos e serviços. Por sua vez, a igreja que não tiver uma estrutura compatível com a demanda estará fadada a perder parte do mercado. Num contexto onde o consumo passa a ser, mesmo que de forma inconsciente, o principal propósito e estímulo, podemos encontrar tanto no comportamento dos freqüentadores quanto na estruturação das organizações, características não mais de uma comunidade de adoradores, mas uma mera cultura de mercado, onde tudo passa a parecer produto ou serviço, e os que ali vão, estão dispostos meramente a consumir. Muitos dos que vão à igreja "para adorar", parecem estar indo à gerência de um banco. Talvez para tentar obter um crédito, talvez para renegociar uma dívida, ou quem sabe para fechar um seguro (eterno).
Colocam uma roupa apresentável, pois aparência é fator dos mais importantes; procuram ter um comportamento o mais adequado em relação ao ambiente, o que pode ser fundamental ao êxito do negócio; e numa das primeiras idas, caso desejem realmente "bater o martelo", preenchem uma ficha cadastral ou apresentam documentos comprobatórios de uma experiência anterior bem sucedida. Sobre a mesa de negociação são colocadas as necessidades mais diversas, com o objetivo de se conseguir aprovação de quem pode de alguma forma atendê-las ou supri-las. É claro que em todos os casos há a chamada `reciprocidade`, em que se obtém algo em função daquilo que se pode oferecer. Esses freqüentadores apresentam mais características, mesmo que não exteriorizadas, de negociadores do que de adoradores. Assim o momento de culto deixa de ser uma "oferta de sacrifício" para tornar-se uma "compra de um benefício", e como todo bom negócio "tem que ser bom para os dois lados envolvidos" o que passa a importar são as condições impostas. De repente ir às celebrações está condicionado ao sentir-se confortado através de cânticos, pregadores, ou eventos preferidos; a oportunidade de descoberta dos dons e de servir num dos vários ministérios estão condicionadas a sensação de capacitação e realização; o relacionar-se com pessoas acontece mediante a condição de haver uma via de mão dupla, é claro.
Nesse contexto, até a contribuição financeira, e talvez principalmente esta, pode ser levada de forma condicional a sua utilização. É pagar pra receber, bancar para usufruir, servir para se realizar, amar para ser amado, louvar para sentir-se leve, enfim, sentir-se com o direito de exigir. "Afinal de contas, estou fazendo a minha parte no negócio, Deus tem que recompensar o meu esforço". Se esse mesmo esforço for motivado por uma sensação de dívida a ser renegociada, as condições continuam existindo, só que do lado oposto, quando a instituição passa a ditar as regras para que tal dívida seja paga, gerando excelente oportunidade para o "abuso espiritual" em muitos dos casos. Num contexto onde a troca passa a ser, mesmo que de forma inconsciente, o principal propósito e estímulo, podemos encontrar tanto no comportamento dos freqüentadores, quanto na estruturação das organizações, características não mais de uma comunidade de adoradores, mas uma mera cultura de negócio, onde tudo passa a parecer oportunidade, e os que ali vão, estão dispostos meramente a negociar. Muitos dos que vão à igreja "para adorar" parecem estar indo a um cinema. Chegam para a hora marcada da sessão, até consomem algo oferecido como chocolates, pipoca ou refrigerante, observam os cartazes de divulgação dos entretenimentos dos próximos dias, na grande maioria das vezes vêm acompanhados de amigos e/ou parentes, e procuram sentar num lugar o mais estratégico possível. Para estes, pouco importa se faz parte ou não da vida real o que se é transmitido.
O que importa mesmo é a possibilidade de analisar com muito cuidado, as ações, os dramas, os musicais, o suspense, e em algumas ocasiões, infelizmente a comédia, o terror, ou os casos de polícia exibidos. Esses freqüentadores apresentam mais características de meros observadores do que de adoradores. Assim, o momento de culto deixa de ser participativo para tornar-se analítico e exclusivo. Exclusivo no sentido de único ou, quem sabe, de exclusivista. Mesmo que ninguém pense da mesma forma, para tudo eles têm o seu conceito e nota. "O louvor foi nota tal, a palavra do pastor um pouco melhor, aqueles avisos poderiam ser "assim" e tal coisa poderia ser "assado"." O pior é que, na tentativa de alcançá-los, os que lideram os processos das organizações, passam muitas vezes não apenas a ouvi-los como uma fonte de informação proveitosa, mas a tentar atendê-los em sua incansáveis e as vezes infundadas sugestões. Num contexto onde o senso crítico, passa a ser mesmo que de forma inconsciente, o principal propósito e estímulo, podemos encontrar tanto no comportamento dos freqüentadores quanto na estruturação das organizações, características não mais de uma comunidade de adoradores, mas uma mera cultura de avaliação, onde tudo passa a parecer estar em julgamento, e os que ali vão, estão dispostos meramente a opinar.Ir à igreja para adorar, no entanto, é algo que vai muito além daquilo que temos observado no aparente comportamento de grande parte de seus freqüentadores.
É muito mais do que ir a um shopping, a gerência de um banco ou a um cinema. É algo que vai além daquilo que está sendo oferecido como atrativo, ou que desejamos "consumir"; daquilo que podemos receber como conseqüência do nosso esforço; e das nossas opiniões, desejos e preferências. Ir para adorar implica em estar ali como consequência de um relacionamento cotidiano de intimidade com Deus, que provoca um profundo senso de gratidão e o desejo de exaltá-Lo na companhia de outros com a mesma experiência e intenção. É algo motivado pelo conhecimento da pessoa de Deus e pelo reconhecimento de tudo o que Ele faz, de quem Ele é, da Sua misericórdia renovada diariamente e da Sua graça presenteada constantemente a cada um de nós. Nisto deve consistir o nosso principal propósito e estímulo ao irmos à igreja para adorar, e que muitas vezes, de forma inconsciente, são desviados para atitudes de consumo, troca e avaliação. Talvez esse seja um bom medidor do quanto estamos indo à igreja para realmente adorar ao Senhor. Medição esta que é pessoal e intransferível. Quem sabe você até conheça o Senhor de perto, mas tem-se deixado levar pela onda do consumo ao "ir para adorar" em função de quem irá cantar, pregar, ou do evento que irá acontecer; quem sabe você até ande com o Senhor dia-a-dia, mas tem-se deixado enganar pela idéia da negociação ao "ir para adorar" na expectativa de receber algo em troca por todo o seu esforço desprendido; quem sabe você até declare que Ele é o seu Senhor, mas tem-se deixado iludir pelo poder da observação ao "ir para adorar" com o senso crítico exageradamente aguçado. Pensando no texto de "João 4:23", acredito que até mesmo dentro dos lugares construídos para o culto ao Senhor, muitas vezes o próprio Deus continue a procura dos que O adorem verdadeiramente.
Ora, se muitos dos que vão periodicamente às "casas de culto" podem ter suas motivações e atitudes sutil e inconscientemente desviadas para as culturas de mercado, negócio, ou avaliação, imaginemos se o Pai encontrará autênticos adoradores nas tantas outras "casas" que freqüentamos no nosso dia-a-dia, onde e quando, na realidade, são lugares e oportunidades para que aconteça uma adoração integral, parte do cotidiano, um culto que passa a ser um estilo de vida e que ultrapassa as "quatro paredes das casas de culto" existentes em toda parte. Somos desafiados, eu e você, a cada momento, a cultivar dentro de nós o propósito de irmos para adorar, mas não apenas às "casas de culto", e sim também aos shoppings, aos bancos, aos cinemas, a todo lugar, de forma que até o nosso consumo, o nosso negócio, a nossa opinião e tudo o mais sejam uma sutil, mas intencional consciente adoração a Deus. Com certeza, isso contribuirá para que, indo à igreja, consigamos não nos desviar do foco, e aí não mais tão sutilmente O adoremos.
AUGUSTO GUEDES é pastor, empresário, compositor e músico. Casado com Analice e pai de Brenda, Bruna e Bárbara, é um dos fundadores do Instituto
Ser Adorador. www.seradorador.com.br/quemsomos

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