sexta-feira, fevereiro 09, 2007

PASTOREANDO TIJOLOS II

PASTOREANDO TIJOLOS II:
O LEÃO, A FEITICEIRA, OS GERENTES E A COISIFICAÇÃO ATUAL.

Quem viu deve lembrar. Quem não viu e já está em crise de como vai continuar a ler este breve texto, facilito:
A cena é triste. A cena é o castelo escuro, o esconderijo da Feiticeira de Nárnia (a vilã). Aslam (o leão), está andando e olhando. A câmera mostra enfaticamente muitos personagens. Todos estátuas de pedra – maldição lançada pela Feiticeira. Aslam olha. Quem está com ele também olha.

Este era o feitiço da bruxa de Nárnia: Transformar seres vivos em estátuas de pedra.
A cena é tão marcante... Tão triste. Fisgou-me. Tem um tempo que não vejo o filme e não penso nem nele nem muito menos nesta cena, mas, durante meu banho ontem, veio em mim esta idéia de que esta cena é uma paródia do que estamos vivendo no seio da igreja evangélica hoje. A água caía em meu corpo e eu pensava nesta cena do filme de Nárnia e na nossa Igreja, na nossa pastorada. Passado alguns minutos já estava batendo papo com meu aluno de violão quando na conversa ele me fala de uma certa igreja que teria 25.000 mil membros... As palavras evocaram novamente aquele tanto de seres juntos no salão do castelo da Feiticeira... Coisa assustadora! Pensei.

Talvez não seja preciso frisar de que o momento em que vivemos é de grandes projetos. A grandeza para a maioria é a mãe do sucesso. Aliás, nunca vi tantas palavras sinônimas dela sendo usadas com tanta força: sucesso, vitória, grandeza, vencer (compre dez cds em lojas evangélicas e compare as letras e verás/ouvirás/entenderás o que andam “lovando?” por aí.
Aliado a isso temos algo preocupante. É que Ser pastor ou mesmo líder hoje requer além de pastoreio de tijolos (quem não entendeu leia no site da ultimato o texto Pastoreando Tijolos), um grande potencial de gerenciamento (e para organizar este gerenciamento, os membros do corpo de cristo são numerados) - lembrei-me do texto em que Davi promove o censo e desobedece a Deus. Interessante: Deus não queria censo... – A ênfase é no número, por conseqüência do tamanho do templo. Estes dois são e estão quase que inseparáveis. Numa conversa casual entre dois evangélicos que acabaram de se conhecer é mais do que normal rolar esta pergunta: quantos membros tem sua igreja?

Humm...
Aslam ia andando, passando e olhando, andando, passando e olhando. É um convite para andarmos, passarmos e olharmos. Rubem Alves disse que somos doentes dos olhos... Os olhos ultimamente só querem grandeza, números. Numerar é reduzir um ser vivo em mais um... e isto petrifica os seres, as pessoas. Eles são números. Aslam passava e via: seus semelhantes não empalhados (só se empalha o que está morto, menos mal comparado a petrificar. Petrifica-se o que ainda está vivo!) seus semelhantes petrificados. Duros... Rígidos...
Ah teria tanta coisa para falar da igreja brasileira quanto á rigidez... Disseram-me que Ron kenoly ficou triste e disse da sua tristeza lá na 8° presbiteriana de bhte. O porque dela é que ele rodou o Brasil todo esperando ouvir um baião ou bossa-nova e não ouviu: não tem molejo, todos duros, estátuas petrificadas.

Aslam e você estão olhando. Após a caverna da Feiticeira continuam andando, atravessam gerações, anos vão se passando e ainda você vê seres como você petrificados. 25.000 aqui, 5.000 ali. Todos duros. Aslam olha pra você. Seus olhos estão tristes. Mesmo após sua ressurreição ainda haviam pessoas petrificadas e sendo gerenciadas. James C. Hunter disse que só se gerencia coisas, pessoas são lideradas. Coisificação é o termo que Ricardo Barbosa no seu livro caminho do coração descreve para a realidade em que as pessoas são usadas para outros fins. São transformadas em coisas. Aslam está triste e você também. Você VIU o que ele via!

Mas, Ele o convida a olhar mais de perto.
Você se aproxima e percebe algo dependurado no pescoço de todos: era um crachá! E nele havia um número!

A cena do filme de Nárnia muda quando Aslam se aproxima e expira em cima do personagem petrificado. O Sopro dá vida ao personagem e a petrificação começa a ceder até que ele volte ao normal. É tão lindo e é inevitável não se lembrar do texto de Gênesis em que Deus sopra no homem o seu espírito: “... e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou alma vivente”.Gn 2.7b (C. S. Lewils só pode ter pensado neste versículo!)
Você ainda vê tijolos sentados em bancos... Pessoas sendo varridas para fora das igrejas. Outras recebendo crachás e sendo chamadas por números e se tornando estátuas. E percebe que os filhos de Deus, membros do corpo de Cristo são contados, coisificados, gerenciados por Pastores de tijolos, numa coisificação sem fim.

Você ouve um canto. É Aslam e todos os que já não eram estátuas mais: -Vem ó vento do espírito. Vivifica-nos! E não nos deixe amoldarmos ao sistema do mundo que já está dentro das igrejas, transformando pessoas em coisas, números.

De repente seus olhos piscam... más... você pensa. Você não entende.... tudo tão estranho... aí estou confuso... seus pensamentos tentam compreender. Seu corpo todo dói. Parecia paralisado há muito tempo. Os seus olhos embaçados clareiam.. e você vê Aslam terminando de expirar sobre você.

Quem tem olhos pra ver, veja. Quem tem ouvidos, ouça.

Ramon Goulart – dezembro de 2006 – bhte/MG

Nenhum comentário: