terça-feira, abril 10, 2007

Onde estão os artistas?


Mark Carpenter

Quando Ultimato me convidou para assinar esta coluna, aceitei imediatamente. Achei que no âmbito natural imposto pelo título da coluna (“Arte e cultura”) poderia discorrer sobre a relação entre vida cotidiana e a manifestação artística, sempre à luz do contexto brasileiro e da cosmovisão bíblica. Acreditei também que a disciplina bimestral de escrever sobre o tópico me levaria a descobrir o melhor da arte cristã brasileira. Infelizmente isto não aconteceu. Ou melhor, ocorreu o contrário. Descobri que o que se rotula de arte cristã no Brasil é quase sempre utilitário, kitsch ou mal executado. Veja, por exemplo, o caso da música cristã. A igreja brasileira não é um bom lugar para quem aprecia música de qualidade. Quem gosta de música autêntica e bem composta padece calado (ou, quem sabe, fazendo mímica bem-comportada) todo domingo em milhares de igrejas espalhadas pelo Brasil. Tenho certeza que alguns leitores, ao lerem essas declarações, concluirão que (1) sou um cristão rabugento e anti-pentecostal, daqueles que só sabem entoar hinos do Cantor Cristão, acompanhados por piano desafinado ou teclado imitando órgão de tubo; ou (2) sou um elitista, que provavelmente acha que Deus só ouve CD’s de música sacra da Deutsche Grammophon em seu home theater celestial. Mas esses rótulos não colam. Não sou nem retrógrado nem eruditista. Defendo apenas a busca de um padrão mais aculturado, relevante e genuíno, que espelhe a excelência criativa de Deus. Certamente há exceções, mas são muito raras. O problema não é falta de talento musical. Há nas igrejas inúmeros músicos de grande alcance e potencial. Mas poucos ousam criar fora dos padrões estéreis da pasteurizada praise music mundial. Não é diferente nas outras artes. O consumismo cristão força a arte a ser um meio, e nunca um fim. Deixamos de valorizar o compositor hábil que cria em louvor a Deus, e preferimos aquele que faz refrães previsíveis que abrem o clima emocional para a oferta ou o sermão. Deixamos de valorizar o artista plástico que se empenha para se expressar, e preferimos aquele que apenas ilustra “sem frescura”. Deixamos de valorizar o poeta, e preferimos o antologista de chavões. Acabamos sempre sacrificando a contemplação cristã no altar do entretenimento. Não sou contra o entretenimento em si, mas quando ele usurpa o lugar da arte, tenho a impressão que perpetuamos a pobreza de espírito. A falta de contato com a arte não ameaça a salvação do crente em Cristo, mas tenho a sensação de que o deixa menos capaz de distinguir entre real e ideal, menos ciente da extensão do mistério de Deus, menos sensível às nuanças da criação, e menos capaz de dialogar com quem ainda não encontrou o Deus verdadeiro, mas busca significado e transcendência na música, no cinema ou nas galerias de arte. Quem são os verdadeiros artistas cristãos do Brasil? Conheço alguns escritores, músicos, poetas e artistas plásticos que se expressam com grande talento e paixão. Mas são muito poucos. Peço ajuda dos meus leitores. Quais são os nomes que deverão constar da lista dos bons artistas cristãos nacionais? Enviem suas indicações para <cartas@ultimato.com.br>, incluindo uma nota biográfica do artista, citação de pelo menos uma das suas obras, e uma frase justificando a sua inclusão nesta lista de “melhores”. Quem sabe isso seja o início de uma nova oportunidade para os que trabalham com talento na obscuridade. Mark Carpenter é diretor-presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

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