terça-feira, outubro 09, 2007

Ouro de tolo


Quando o homem inventou a roda, logo Deus inventou o freio.
Quando o feio criou a moda, toda a roda amou o feio.



Assisto ao último Vídeo Music Brasil da MTV. Como em anos anteriores não se vê muita coisa nova. Sempre uma bandinha de rock ou, no mínimo, pop acaba levando a maioria das premiações. Além do que, para completa a sessão "(não)vale a pena ver de novo", existe a performance dos apresentadores; alguns embriagados com sua euforia patética, outros abusando dos palavrões que caracterizam a "atitude" da emissora, gente pouco famosa se "achando" diante da platéia. Tudo muito colorido, entorpecido (a droga rola solta) e cheio de clichês do mundo pop da MTV. Este cenário leva minha mente aos estudos que fiz sobre um movimento artítistico pode demais interessante: o Barroco. Podemos dizer que o Barroco foi o movimento do exagerado. No pêndulo entre a razão e a emoção, este movimento se identifica com a última; extravassa sentimentos, põe para fora os medos reprimidos, busca uma nova perspectiva para a vida. Até então, algo bem interessante (e perigoso para os ortodoxos de plantão). Porém, no final de seu ciclo o Barroco foi tomando dimensões exageradas demais; ficou parecendo drag queen em parada gay: só queria aparecer. O movimento ganhou um aspecto sem sentido, abusado, enjoado e pouco criativa, entretanto, sempre indiscreto em suas construções de arte.

Sim meu caro leitor, esta é uma comparação com o cotidiano. O consumo da arte (consumo?), neste caso, da música, fez com que a mesma perdesse bastante da sua criatividade. Afinal, agora se abraça o que pode render muito, gerar lucro, esteriótipo que amanhã vai virar moda, desde chaveiros a camisetas para estampar a ideologia da música. As bandas premiadas em tais eventos são medíocres; carinhas cantando seus amores inatingíveis, alguns falam contra um sistema que eles mesmos usufruem. Tocam seus acordes grudentos e suas caras (e caretas) modeladas nas concentrações ideológicas do pop (f*ck you!). Creio que o exemplo mais práticos e sintético a cerca disso é a pessoa de Dercy Gonçalves. Sempre que a vejo em ação (caducando mais do que nunca), me pergunto que graça tem ver uma mulher idosa falando palavrão na TV. Quando vejo os rostos sorridentes dos apresentadores e outras figuras que a bajulam, fico pensando o que realmente há na cabeça destes... Tudo, enfim se resume em algo. É moda. Moda essa que transforma letras ridículas, imorais e falta de riqueza em manjar dos deuses para a massa. Moda que exaltam o piercing no umbigo, o cabelo colorido, o estilo EMO(argh!), quando se podia valorizar as "idéias encaracoladas das cucas maravilhosas". Como diz um vizinho meu: "Entre ser feio e rico, prefiro o último; o brilho do ouro reflete sua beleza no vil metal".

terça-feira, outubro 02, 2007

PAPO NO BOTEQUIM CELESTE

O DIA EM QUE SÉRGIO PIMENTA CHEGOU NO CÉU

Por Isaias de Oliveira

Aquele parecia ser apenas mais um dia tranqüilo em terras celestiais. Quem corresse os olhos pelo lugar, veria Abraão, Paulo e Jeremias conversando animadamente enquanto praticavam o cooper matinal ou Moisés narrando pela milésima vez, a um grupo de recém chegados, toda a epopéia da travessia do Mar Vermelho.
Já no barzinho da Academia de Poetas Celestes, a animação corria solta enquanto nas caixas de som rolavam músicas do disco de Vento em Popa. Contrastando com a tranqüilidade das músicas, uma angelical garçonete transitava apressada entre as mesas carregando bandejas de papos de anjo, pastéis de santa clara e outras iguarias divinas. Numa mesa um pouco mais afastada, dois homens conversavam calma, serena e tranqüilamente enquanto beliscavam toucinhos do céu: eram Janires e Jairinho.
A conversa seguia o rumo de uma nova parceria musical quando a garçonete se aproximou com ares de novidade. Depositou a bandeja vazia na mesa e curvou-se antes de dar a notícia.
· - Vocês já sabem quem chegou na área? – sem esperar resposta, a garçonete foi logo dizendo – Sérgio Pimenta.
· - Sérgio Pimenta? - perguntou Janires dando um salto da cadeira.
· - Nosso poeta maior? – diz Jairinho imitando o gesto de Janires
· - Você tem certeza, irmã? – indaga Janires ainda perplexo.
· - Acabei de cruzar com ele nos corredores – confirma a garçonete meio alvoroçada – não foi ninguém que me contou não, eu vi.
· - Que coisa, rapaz – comentou Jairinho deixando-se cair na cadeira – moço tão novo...
· - É nóis não era? – emendou Janires meio gaiato, depois, completou um pouco mais sério e sentando-se. – Cara, não sei se choro ou dou risada. Pô, Jairinho, o cara não está mais na terra... vai ficar com a gente, agora... Maneiro.
· - Traz ele pra cá – pede Jairinho já puxando uma outra cadeira pra junto da mesa.
· - E já diz pra ele trazer um violão – completa Janires.
· - Assim que ele terminar de preencher as papeladas lá no escritório – diz a garçonete enquanto recolhia com destreza pratos e taças que estavam sobre a mesa.
· - Santa burocracia – comenta Janires sem esconder o sorriso.
· Minutos depois a solícita garçonete chega trazendo o novo hóspede que é recebido calorosamente pelos dois. Depois das apresentações formais e abraços os três sentam-se à mesa. A garçonete chega logo em seguida com a bandeja cheia e abastece a mesa com fartura.
· - É sempre assim, por aqui? - pergunta Pimenta com a inconfundível voz grave e o sorriso largo iluminando a face.
· - Não – explica, Jairinho – só quando chegam as celebridades. Os três caem na risada dando uma idéia de como seria a convivência entre eles.
· - Então, irmão, me conta como estão as coisas lá embaixo – perguntou Janires tocando levemente o braço de Pimenta.
· - Não mudou muito desde que vocês chegaram aqui, não – respondeu - tem muita gente achando que está fazendo música, outras mais preocupadas com grana, prestigio, sucesso e tem aquela turminha de sempre, pequena, lutando com disposição para que a música cristã não caia totalmente na mesmice.
· - É, então não mudou muita coisa mesmo... – ponderou Jairinho – é porisso que eu estava pensando numa coisa, você vai fazer uma falta danada lá embaixo...
· - Vou não, Jairinho, ficou muita gente boa por lá. Tem o João Alexandre, o Jorge Camargo, Rehder, Bomilcar, Guilherme, Gerson Ortega, Josué Rodrigues, enfim...
· - Até aí você tem razão, mas minha preocupação, Pimenta, é com o futuro – diz Janires cofiando a barba e meio introspectivo – com o futuro... Quem vai trilhar os teus passos? Esse lance dos grandes esquemas de gravadoras, super produções, da grana, da vaidade acima dos interesses do Reino vai acabar complicando tudo. O que tú acha?
· - Janires – começou Pimenta enquanto se ajeitava melhor na cadeira – quando eu estava vindo pra cá esta preocupação bateu forte em mim também. Afinal de contas esses caras todos que citei já não são mais crianças. Mas aí lembrei de uma noite em que resolvi ir a uma igreja no subúrbio do Rio. Lugar pobre, meio esquecido. Fui pra assistir mesmo, não ia cantar. E lá, cara, conheci um moço, quase menino, que cantou sozinho com um violão até meio detonado. A música daquele menino, que me pareceu muito tímido, me tocou tanto, passou tanta verdade, tanta poesia... dava pra sentir claramente que a graça de Deus estava sobre a vida dele, entende? Cada música linda que ele compõe... saí de lá sem poder conter as lágrimas.
· - Sério, vélho? – questionou Janires se aproximando ainda mais de Pimenta. – Conta mais.
· - Pois é, rapaz – continuou Pimenta – meio de longe continuei acompanhando os passos do moço e as noticias que me traziam eram as melhores possíveis. Ele é cristão desde garoto, é sério, comprometido com o reino mesmo. Até acho que ele foi tocado pela tua música, Janires, teus rítmos, tua descontração. O menino lá é cheio de brasilidade.
· - Então puxou pra tú, também, irmão – complementou de primeira Janires dando uma sonora gargalhada.
· - É, pode ser – pensou Pimenta. O que eu sei é que vê-lo e ouvi-lo cantar, com toda sua simplicidade, humildade, poesia e talento me encheu de esperanças.
· - Me diz uma coisa, Pimenta – questionou Jairinho – É como é o nome do moço?
· - O nome dele é Gerson Borges, carioca como eu, nascido no subúrbio.
· - Tem som até no nome – brincou Janires – já é um bom começo.
· Sérgio Pimenta riu com gosto, depois sorveu com prazer o último gole que restava na taça e conclui.
- E isso não é tudo, depois, conversando com amigos, fiquei sabendo de outros caras tão jovens quanto ele que estavam começando a despontar aqui e ali. Caras com o mesmo talento do menino que eu conhecera. Me falaram de um tal de Silvestre em São Paulo, uma dupla de meninas que cantavam muito, Cíntia e Silvia, se não me engano, um rapaz chamado Tiago, de Campinas, uns caras do Nordeste, Diamanso e Carlinhos Veiga, um poeta chamado Stênio...
- Não diga, rapaz – diz um espantado e feliz Jayrinho.
- Toda semana ouvia um nome novo: Glauber, Priscila, Jonas, Fabinho, Gladyr, tinha até um argentino fazendo música brasileira com competência, não me lembro o nome dele... Cláudio!!, lembrei.
Janires, a esta altura estava de pé, visivelmente emocionado e já havia enchido as taças novamente. Depois de servir Pimenta e Jayrinho, ergueu sua taça na direção dos amigos como que propondo um brinde.
- Você não sabe o quanto me alegra ouvir isto, Pimenta. Tuas noticias me encheram de esperança. Que Deus levante, a cada dia, gente em todos os cantos desse nosso Brasil sofrido. Gente cheia de graça e talento, que coloque Seu reino acima de todas as coisas. Que vivam pra servir ao Mestre das Canções, se servindo dos nossos mais variados ritmos e sons.
- Falou bonito, moço – diz Pimenta enxugando os olhos marejados na manga da camisa.
- Falou tudo – completa Jayrinho
Os três brindam, bebem, sentam-se e continuam o papo que tinha tudo pra durar uma eternidade.