quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Talentos (não) devem ser explorados



Por Sérgio Pavarini

Antes de ser atendida no consultório médico, a paciente recebe a ficha para preencher. Um dos dados requeridos a deixa intrigada.

– Não entendo por que o doutor Miguel precisa saber minha religião...

Solícita, a secretária dá a explicação.

– Ele é crente e só atende pessoas que aceitaram a Jesus como salvador e Senhor de suas vidas.

A ilustração é absurda porque o profissional envolvido é da área médica. Se fosse um músico, o enredo poderia ser observado com freqüência. Afinal, boa parte dos líderes crê que as igrejas são o único lugar em que cantores e instrumentistas devem usar seu talento.



Vivemos tempos estranhos em que aconteceu a ressurreição parcial do ofício dos levitas. Parcial, por que levitas pós-modernos só cantam ou tocam. Ninguém encontra um levita cuidando da limpeza ou da portaria, por exemplo. Pra completar, todos os textos bíblicos que tratam do sustento dessa tribo foram esquecidos.

Músicos que tocam na noite não serão aceitos em muitas igrejas, já que pastores costumam associar a noite às trevas, com exceção das vigílias da comunidade. “Deixe de tocar nesses antros de pecado que vamos lhe auxiliar no sustento”, repetem aos musicistas. No final do culto, o cara precisa esperar a looooonga fila de pessoas pedindo oração para receber grana suficiente para a passagem de ônibus e a tradicional “coxinha maranata”.

Se não tem outra opção profissional, o músico precisa “se virar nas trinta”. No caso, atividades diferentes para garantir um padrão mínimo de decência. Dá aulas de tuba e bateria em domicílio, ensaia grupos de outras igrejas, grava com artistas (se o CD não é cristão, ora fervorosamente para ninguém descobrir), toca em casamentos e chás de senhoras. Recusa apenas convites para missas de sétimo dia e baile de debutantes.

Algumas igrejas tradicionais têm mais cuidado com essa questão. O ministro de música fez curso de nível superior na área e é funcionário da igreja. Em outros lugares, alguns minutos de destaque durante o culto são uma moeda de troca eficiente.

O descaso com que a área musical estende-se também à compra de equipamentos. Sei de igrejas em que é quase necessário fazer uma assembléia para decidir a compra de cordas novas para a guitarra.

Do outro lado do ringue a coisa também não rola legal. Costumo afirmar que é possível avaliar o zelo do músico ao observar seu entorno. Cabos amontoados, instrumentos em mau estado de conservação e transparências com erros ortográficos são um bom indicador do descaso com que as coisas de Deus são (mal)tratadas.

Da mesma forma que determinados textos bíblicos são equivocadamente interpretados de forma literal, infelizmente ainda há líderes que levam ao pé da letra a expressão “explorar talentos”. Até quando, só Deus sabe.

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