terça-feira, março 11, 2008

Texto de Abertura - Lançamento cd Mpb Black - Mpb, soul e adoração - Ramon Goulart e Jaiminho Silva - bhte/MG


Boa noite!
Senhor Deus, agradeço por tua presença, agradeço a todos que nos prestigiam nesta noite.
Meu nome é Fernanda, sou historiadora, professora e mulher virtuosa!
Numa sociedade que nos impõe tantos craus, créus e credos, é um privilégio estar aqui para desfrutar de uma música com qualidade.
A música! Ah, a música! ... Deus sabe o que é bom, por isso além de nós, mulheres, também criou a música, para os homens estarem sempre em boa companhia.
A palavra música vem do grego “arte das musas”. É uma das mais importantes artes. A História também era uma musa, a musa que proclamava. E o meu desafio hoje é falar da bela Música Popular Brasileira.
Não há como falar da música brasileira sem falar do povo brasileiro.
Nossa terra, antes de ser chamada Brasil e de ser invadida ou “descoberta”, era então habitada pela música, que estava presente nos mais variados povos que aqui viviam e foram, erroneamente, chamados pelos europeus de “índios”.
A dominação portuguesa não foi somente territorial, mas perpassou a imposição de uma catequização dos costumes e da cultura. Nesse processo de extermínio, nunca saberemos medir o quanto das culturas indígenas foram perdidas, ou quanto ainda sobrevive no acelerado processo de globalização.
A dominação indígena não se mostrou adequada à empresa portuguesa, por isso cruzaram o Atlântico e para cá trouxeram uma miríade de povos africanos escravizados.
A cultura e a música sempre representaram para os negros uma forma de resistência cultural. A estreita convivência entre brancos e africanos, entre casa grande e senzala, nem sempre foi tão democrática, como queria Gilberto Freire.
Nesses quatrocentos anos de escravidão, coexistiram o sagrado e o profano, mas se sabia qual era o lugar da cultura oficial e a marginal. Mas a música é também rebelde, e como os brasileiros, tem o seu jeitinho de se infiltrar e romper os limites estabelecidos.
No final do século XIX, e na década de 1870, o movimento abolicionista se tornou forte no Brasil, dele tomaram parte inclusive brancos, alguns defendiam que os negros maculavam a cultura branca com seus “vícios”; leia-se costumes, religião e música também.
A maneira como a abolição foi feita, indenizando os brancos, legou aos afrodescendentes o desafio de conquistar a condição de cidadania.
O negro e sua cultura continuaram a ocupar um lugar secundário a ponto de alguém participar de uma roda de samba ser visto como contraventor até os anos 20.
Nesta transição para o século XX, uma mulher merece destaque por sua ousadia: Chiquinha Gonzaga, que deixou as amarras das convenções sociais e subiu o morro para casar a herança portuguesa e a negra, gravando os primeiros choros e sambas, “ô abre alas porque a música quer passar”.
Só nos anos 30 Getúlio, populista, queria se mostrar popular, e nada melhor do que eternizar o Brasil por meio do samba.
“Brasil, meu Brasil brasileiro... Meu mulato inzoneiro, vou cantar-te nos meus versos...”
Tudo isso ocorreu dentro de um espírito modernista, que rompia com aquela cultura tradicional que macaqueava França e Europa e agora buscava se reencontrar.
Os artistas brasileiros conheceram na Europa o modernismo e suas várias correntes, seja o surrealismo de Dali, o cubismo de Picasso, e outros. E propuseram então uma ANTROPOFAGIA, ou seja, canibalizar a cultura estrangeira para alimentar a NOSSA cultura nacional de “alma parda tupiniquim que exclama adiante!”.
Tivemos um segundo acesso antropofágico, mas desta vez absorvemos a cultura americana, “isso é BOSSA NOVA”, “olha que coisa mais linda, mas cheia de graça, é essa menina”... a música, que nos faz conhecidos como brasileiros por onde é tocada.
Mas os ventos de liberdade duraram pouco. Em 64, um golpe fatal. Mas a música habitando os jovens ousou continuar... “caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento”.
Aqui, a música se torna a arma e a esperança daqueles que combatem a ditadura militar, e dizem “hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão”. Mas “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”.
Com esse caráter político ou até revolucionariamente apolítico como os tropicalistas, este estilo marcou pra sempre a história da música, constituindo o que hoje chamamos “MÚSICA POPULAR BRASILEIRA”.
Nos anos 80, a nova república democrática abre espaço ao movimento black mostrando novos ritmos, “this is the thriller...”. Surgiram por aqui o break, o hip-hop, o rap, o axé e outros deliciosos ritmos black.
Nos anos 90 e nesse início de milênio, internet comercial, globalização, as minorias se mostram pela música, e na diversidade de músicas, de culturas e povos nos descobrimos como humanos, terráqueos, responsáveis pelo meio-ambiente, que começa em cada um e compreende todo o universo, e desse microcosmo humano ao macrocosmo celestial, a música é sempre um grande presente. Pausa......
Bem, Rubem Alves diz que um nutricionista sabe das propriedades dos alimentos, mas o cozinheiro é quem entende da alquimia de combiná-los para fazer o paladar bem SENTIR.
Da mesma forma, o historiador pode saber da música, despi-la, mas só os músicos é que podem nos envolver e nos fazer SENTIR por meio dela.
Por isso, depois dessa viagem pela história da música, vamos voltar para o presente, e o presente pra vocês é desfrutar do MPBBLACK!
Os líderes desse lindo projeto são Jaiminho Silva, músico profissional, voz prodigiosa, verdadeira e bela black soul. E também Ramon Goulart, artista, desenhista, pastor, teólogo e... músico! Convido vocês a subirem ao palco para nos fazer vibrar com a música.
SALVA DE PALMAS
RAMON E JAIME TOMAM SEUS LUGARES.
Fernanda Gouveia – Professora de História do Colégio Magnum, especialista em História da Ciência (UFMG) e Gestão de Projetos Educacionais (UNA). www.historiamagnum2008.blogspot.com