sexta-feira, abril 03, 2009

PROFETA, MÚSICO OU POETA?




Você chama um profeta em sua casa. Precisa da bênção de Deus em sua vida. No horário marcado a campainha toca e embora o som tenha se esvaído ainda sim você escuta outro som... Parece um violão sendo tocado... Que estranho você pensa. Deve ser algum pedinte...
Ao abrir a porta você se depara com o profeta. Violão sendo dedilhado e um belo sorriso no rosto, antes que você possa pensar em algo diante daquela cena, ele já interpõe seus pensamentos com sua canção:

“Meu coração transborda num belo poema
a minha língua é a pena de um escriba habilidoso
seja eu nas tuas, como eu nas tuas este instrumento...
Faço um concerto contigo em plena praça pública”
Roberto Diamanso – CD Menestrel

E o profeta tange e toca, e mesmo ali na porta a casa toda é inundada pela beleza, pelo carinho e pela profundidade das palavras. Após, isto o profeta se vai, com um sorriso ainda mais gratificante, como se personificasse o que Machado de Assis disse que aquele que faz um bem é mais agraciado do que aquele que o recebe.
Você não acredita. Mas ali estava um profeta. Um artista...

“Esta concepção do artista como profeta deriva-se do modelo bíblico, mas os artistas não eram vistos neste sentido até o período romântico. A principal razão para a mudança foi o livro Lectures on the sacred Poetry of the Hebreus (1753) do teólogo Robert Lowth, que influenciou poetas como William Blake. Uma das conclusões de Lowth era que o termo Nabi em hebraico, traduzido como profeta na Versão Almeida Revista e Atualizada, poderia, de igual modo, significar poeta ou músico. (...)

Os verdadeiros profetas eram pessoas que transmitiam as palavras de Deus ao povo. Expressavam os sentimentos de Deus com relação a uma conduta específica, prediziam as conseqüências da obediência e da desobediência e prenunciavam eventos que aconteceriam tanto em um futuro próximo quanto distante. Nem sempre eram figuras populares.
Este não é o ponto para uma discussão sobre a atualidade do dom da profecia. Mas, verificar como as ações dos profetas sugerem possibilidades para os artistas. Como os artistas, eles parecem ter existido à margem da sociedade. Talvez por não estarem no centro das atenções eram capazes de manter uma perspectiva mais bem orientada. Há também uma relação próxima entre a música e a profecia, quase como se a interpretação musical preparasse a mente para receber a mensagem de Deus. O “grupo de profetas” que se encontrou com Saul em Gibeá toca liras, tambores, flautas e harpas (I Samuel 10:5).
Na voz dos profetas podemos ouvir certa raiva e condenação que nos lembra a música de protesto da década de 60, o punk rock da década de 70 e o rap da década e 90. Essa música forçava a sociedade a encarar fatos desagradáveis sobre seu comportamento. (...)
Além de falar, cantar e tocar instrumentos musicais, os profetas muitas vezes realizavam atos estranhos cujo objetivo era provocar e surpreender. Ezequiel deitou-se de lado por um ano. Em outra ocasião, raspou a cabeça. Jeremias escondia sua roupa íntima em uma fenda até que ela apodrecesse e depois a exibia como uma ilustração de como Deus via o orgulho de Israel. Aias rasgou sua capa em doze pedaços. (...)

“O que precisamos hoje é trabalhar com afinco e desenvolver novos conhecimentos que nos preparem para nossa arte e nossa época”. Cristianismo Criativo? Steven Turner, W4 Editora, 2007

Após de relance se conscientizar de tudo o que tinha pensado (profetas, músicos, poetas, sua ligação, função, etc), ali mesmo na porta parado como você estava, você ainda ouve...
E vê de longe que o profeta já estava a cantar, e seus versos a entoar/entornar, em outra casa, outro lar...

E você diz em voz alta fechando a porta após si mesmo:
profeta, músico o poeta: eles são e podem ser o mesmo!


Pr. Ramon Goulart
ramongoulart@yahoo.com.br
www.myspace.com/ramongoulart

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